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Resenhas

A Invenção do Cotidiano - Artes de Fazer, Vozes, 351 pp., 2002

01/03/2010 - Michel de Certeau

Com Certeau não há termos apropriados a serem empregados, porque atuou como um bruxo na arte de recontar a história sob a perspectiva do indisciplinado cotidiano e de suas práticas ordinárias. O homem é visto a partir do lugar comum que ocupa, atrelado ao outro pela linguagem – um bem comum. Mas como ele opera na história e nas tramas de suas relações? “o homem ordinário é acusado de arranjar para si, graças ao Deus da religião, a ilusão de esclarecer todos os enigmas do mundo e de animar a segurança que uma Providência cuida de sua vida. (p. 62). Por isso é essencial que passe a ocupar um lugar - não previamente garantido, mas construído: o de narrador da própria existência. Essa narração se dá atravessando os usos das práticas comuns (lavar e passar roupa, conversar no boteco, dirigir, trabalhar ...), procedimentos (termo utilizado pelo autor), que podem levar à instituição de uma narrativa singular se o limbo que lhe é inerente for abandonado: “Há, nas práticas, um estatuto análogo àquele que se atribui às fábulas ou aos mitos, como os dizeres de conhecimentos que não se conhecem a si mesmos. Tanto num caso como no outro, trata-se de um saber sobre os quais os sujeitos não refletem. Dele dão testemunho sem poderem apropriar-se dele. São afinal os locatários e não os proprietários do seu próprio saber-fazer”. (p. 143). Essa é uma boa maneira que o autor encontra para falar do ordinário, uma instância que carece da apropriação do saber-fazer, que desconhece a potencialidade de inventar a partir da transformação do já estabelecido. Nesse sentido, fica a sugestão de Certeau que diz respeito também a este texto: leia-o aleatoriamente, porque “ler é peregrinar por um sistema imposto”. (p. 264). Crie o seu.

 

 

 

Sumário

 

 

Apresentação de Luce Giard

 

Mais que das intenções, a paisagem de uma pesquisa ...

 

INTRODUÇÃO GERAL

A produção dos consumidores

Táticas de praticantes

 

PRIMEIRA PARTE

UMA CULTURA MUITO ORDINÁRIA

 

Dedicatória

 

I UM LUGAR COMUM: A LINGUAGEM ORDINÁRIA

“Cada um” e “Ninguém”

Freud e o homem ordinário

O perito e o filósofo

O modelo de Wittgenstein da linguagem ordinária

Uma historicidade contemporânea

 

II CULTURAS POPULARES

Uma “arte” brasileira

A enunciação proverbial

Lógicas: jogos, contos e artes de dizer

Uma prática de dissimulação: a “sucata”?

 

III FAZER COM: USOS E TÁTICAS

O uso ou o consumo

Estratégias e táticas

Retóricas das práticas, astúcias milenares

 

 

SEGUNDA PARTE

TEORIAS DA ARTE DE FAZER

 

As práticas cotidianas

 

IV FOUCAULT E BORDIEU

Tecnologias disseminadas: Foucault

A “douta ignorância”: Bourdieu

 

V ARTES DA TEORIA

Destacar e pôr do avesso: uma receita da teoria

A etnologização das “artes”

Os relatos do não sabido

Uma arte de pensar: Kant

 

VI O TEMPO DAS HISTÓRIAS

Uma arte de dizer

Contar os lances: Detienne

A arte da memória e a ocasião

Histórias

 

 

TERCEIRA PARTE

PRÁTICAS DE ESPAÇO

 

VII CAMINHADAS PELA CIDADE

Do conceito de cidade às práticas urbanas

A fala dos passos perdidos

Míticas: aquilo que “faz andar”

 

VIII NAVAL E CARCERÁRIO

 

IX RELATOS DE ESPAÇO

“Espaços” e “lugares”

Percursos e mapas

Demarcações

Delinqüências?

 

QUARTA PARTE

USOS DA LÍNGUA

 

X A ECONOMIA ESCRITURÍSTICA

Escrever: prática mítica “moderna”

Inscrições da lei no corpo

De um corpo ao outro

Aparelhos de encarnação

A maquinaria da representação

As “máquinas celibatárias”

 

XI CITAÇÕES DE VOZES

A enunciação deslocada

A ciência da fábula

Ruídos de corpos

 

XII LER: UMA OPERAÇÃO DE CAÇA

A ideologia da “informação” pelo livro

Uma atividade desconhecida: a leitura

O sentido “literal”, produto de uma elite social

Um “exercício de ubiqüidade”, esta “impertinente ausência”

Espaços de jogos e astúcias

 

QUINTA PARTE

MANEIRAS DE CRER

 

XIII CREDIBILIDADES POLÍTICAS

Queda de cotação das crenças

Uma arqueologia. O tráfico do crer

Do poder “espiritual” à oposição de esquerda

A instituição do real

A sociedade recitada

 

XIV O INOMINÁVEL: MORRER

Uma prática impensável

Dizer é crer

Escrever

O poder terapêutico e seu duplo

O perecível

 

INDETERMINADAS

Lugares estratificados

O tempo acidentado

 

Notas

 

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