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Resenhas

Quartier Lacan, Companhia de Freud, 258 pp., 2007

01/10/2008 - Alain Didier-Weill

Com o testemunho de treze psicanalistas que conviveram com Jacques Lacan, Didier-Weill não retoma os pontos teóricos da psicanálise lacaniana, mas a narrativa desses que conheceram um estilo e seu movimento. Ainda: a maneira como essa relação provocou intervenções em suas vidas e na própria clínica. Com a maioria das entrevistas realizadas em 1993 e 1994, optei, nesta resenha, por pinçar alguns poucos fragmentos dos entrevistados para que o leitor crie suas próprias inferências. Começo por

Jean Clavreul: “quanto mais as instituições são poderosas, menos há possibilidades de inovações originais” (p. 23) “o analista deve ser capaz de reinventar a teoria para cada novo paciente. Essa reinvenção incessante supõe uma curiosidade, um interesse infatigável pelo outro” (p. 26).

Serge Leclaire: “há algo como uma profunda solidão nele que me tocou. Esse apelo chegava ao grito (...) é alguém que nos chamava às duas horas da manhã, porque tinha algo a dizer” (p. 34).

Wladimir Granoff: “o estilo de Lacan se tornou um estilo em que, para o meu puritanismo, se tornou difícil segui-lo. Isto é, no momento em que ele se pôs a ofender as minhas resistências” (p. 77).

Moustapha Safouan: “se você escuta bem, você percebe que o sujeito com o qual você está lidando tem um saber, só que é um saber que ele não pode dizer, que ele não tem condição de articular” (p. 84) “Lacan em relação aos alunos, mostrava uma confiança sem limites. Ele os via como colegas, colaboradores, mas também como porta-vozes, para não dizer profetas” (p. 86). “De certa maneira, pode-se dizer que o objetivo dele era produzir analistas que se definissem pelo desejo e não por um saber” (p. 92) “Se a análise é um processo que não tem um fim, mas uma finalidade, é porque ela permite a transformação da pulsão” (p. 96).

Charles Melman: “Os mais próximos dele sabem que ele começava a sua prática antes das sete horas da manhã, que a terminava tarde da noite, de madrugada. E, como muitos outros, pude vê-lo, em várias ocasiões, sair de casa com o caderninho debaixo do braço para ir tomar aula de matemática: já tinha, naquela época, setenta e cinco anos; e lá ia ele ver seu matemático preferido do momento” (p. 98) “Lacan é apresentado na literatura ou na imprensa como um indivíduo escandaloso, imoral: digo que é absolutamente verdadeiro. Ele é imoral porque a nossa moralidade, como todos sabem, é suja, e não só suja. Nossa moralidade nunca fez outra coisa senão cultivar a perversão. Não é a psicanálise quem diz isso, isso começa com São Paulo, é uma banalidade.” (p. 106) “O tempo do relógio é o tempo mecânico. Você aceitaria ser uma mecânica?” (p. 115).

René Bailly: “da droga à delinqüência é só um passo. A eclosão da droga é nossa doença, nosso sintoma atual, justamente em relação a esse problema dos Nomes-do-Pai” (p. 128).

Claude Dumézil: “as sessões não se desenrolavam de uma maneira padronizada, eram personalizadas” (p. 138) “A única coisa que é impossível transgredir, parece-me, sobre a qual não é imaginável transigir, e sobre a qual – a meu conhecimento – Lacan era igualmente draconiano, é a questão do corpo. Não se deve tocar o corpo do paciente. A transgressão maior consiste, evidentemente, no fato de uma relação sexual se estabelecer entre analista e analisando. Não tenho testemunho direto ou evidente de que isso tenha acontecido na prática de Lacan, mas falam disso” (p. 157) “guardei de Lacan a lembrança de um homem honesto, em todos os sentidos do termo” (p. 159)

Maud Mannoni: “só se é analista dando prova de grande modéstia, e com um paciente” (p. 171).

Michèle Montrelay: “a seu respeito, há uma palavra que eu já deveria ter empregado: generosidade. Comigo, como com muitos outros, ele foi de uma incrível generosidade” (p. 176) “Foi ele quem, durante trinta anos, em razão até de seu gênio, serviu de alvo para todas as espécies possíveis de mal-entendidos” (p. 187).

Christian Simatos: “Ele nunca pronunciava a última palavra de um desenvolvimento sem abrir para uma nova questão” (p. 191).

René Tostain: “acho que os analistas são gente que não acabaram a análise e que não acabarão nunca. Talvez seja isso, esse real que não acaba, que Lacan transmitia sobretudo, e que fazia seus analisandos trabalharem tanto” (p. 205).

René Major: “só o analisando pode dizer que houve analista” (p. 217).

Daniel Wildlöcher: “O que de qualquer modo me espantara desde o início era o que eu chamaria a agitação dele. Acho que era um homem que não suportava ficar mais de alguns minutos possuído pela psique de um outro. Era intolerável para ele. (...) as sessões podiam ser um pouco movimentadas, mas ele tinha uma escuta muito presente. As interpretações, estas, eram raras, eram aliás mais da ordem da interrogação, de um sublinhar de algo, de um fechamento de sessão” (p. 228) “a interpretação deve ser dada no bom momento, e economicamente; deve ser útil, mas absolutamente não informativa” (p. 244).

Sumário

 

Nota do editor

 

Introdução, por Alain Dider-Weill

 

Entrevistas com

Jean Clavreul

Serge Leclaire

Wladimir Granoff

Moustapha Safouan

Charles Melman

René Bailly

Claude Dumézil

Maud Mannoni

Michèle Montrelay

Christian Simatos

René Tostain

René Major

Daniel Wildlöcher

 

Posfácio, por Emil Weiss

 

Glossário

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