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Resenhas

Escrever a Clínica, Casa do Psicólogo, 478 pp., 1998

01/09/2008 - Renato Mezan

Com a idéia inicial de dar dicas aos que se aventuram a escrever, Mezan reúne dezesseis aulas onde explica e argumenta desde o uso da pontuação, das vírgulas, do itálico e de empregos como o este ou esse, ao estilo que dá conformação à escrita; em suas palavras, à elegância e ao bom gosto. Recorre ao principal eixo da psicanálise para falar da elaboração de um texto: a associação livre. Pensando assim, é possível dizer que sabemos vagamente sobre o que escrever até o momento próprio da escrita, quando uma idéia inicial pode tomar caminhos diversos daquele pensado há poucos momentos, um verdadeiro efeito dominó. É usando de sua experiência e estilo que entrelaça, em todo texto, o ato de escrever ao feito psicanalítico. Não se furta a argüir as entrevistas preliminares, a transferência e a contra-transferência e a interpretação, constituindo a angústia como um dos motores para escrever – e para engajar-se em uma análise.  Ao discorrer sobre as primeiras sessões e, portanto, sobre as primeiras idéias que surgem para começar a escrever um texto, lembra uma atitude de Freud: ele “literalmente embarca na história que está sendo contada, e é por isso, a meu ver, que a reproduz de modo tão vivo” (p. 159). Fala, pois, da condição essencial para a escrita: dar-se ao texto num gesto de entrega sem reservas. A abertura do texto, a trança que se desenvolve ao longo das diversas jornadas de fecundação da folha virgem, o emprego dos tempos verbais, a simplicidade da comunicação, o modo de articular as variantes do texto e os referenciais teóricos, e as possibilidades de (semi)concluir uma obra são delineadas quase que didaticamente. Mais do que uma catarse, escrever é um ato de comunicar-se consigo, arrumar a própria casa para depois receber os convidados com cortesia. Concluo trazendo a lembrança de Platão em Fedro: “os livros têm uma vida independente dos autores. Ninguém sabe qual vai ser o seu destino, o que eles vão suscitar nos outros e o que os outros vão fazer com eles”. (p. 378).

 

 

 

Sumário

 

 

 

Apresentação

 

 

 

Aula 1 – equilíbrio, ritmo e contraste

 

Atenção à eufonia

 

Pausas: pontuação e uso do parágrafo

 

 

 

Aula 2 – A fase dos rabiscos

 

Conjunto A

 

Seguindo as primeiras pistas

 

Vingança e humilhação

 

 

 

Aula 3 – O diagrama em colunas

 

As leituras

 

Conjunto B

 

Conjunto C: Estrutura do artigo

 

 

 

Aula 4 – O encadeamento das idéias

 

“Tempo de muda”

 

O início do texto

 

“Não é lá, é depois”

 

Experiência da perda e criação

 

Explicitação dos pressupostos e construção do problema

 

Convergindo para a questão teórica: vingança, vergonha e narcisismo

 

 

 

Aula 5 – O Homem dos Ratos: entrevista preliminar

 

As concepções freudianas em 1907

 

As expectativas de cada um

 

A primeira entrevista

 

As traduções de Freud

 

 

 

Aula 6 – As primeiras sessões

 

Características da entrevista preliminar

 

A primeira sessão

 

O tom das falas

 

A impregnação da linguagem interpretativa pelos termos do paciente

 

 

 

Aula 7 – Do relato à teorização

 

Questões éticas na publicação dos relatos

 

O objetivo do relato

 

A escala de Waelder

 

 

 

Aula 8 – Simplicidade de recursos, riqueza de efeitos

 

Uma ilustração musical

 

Linguagem oral e linguagem escrita: o “polimento”

 

“Tese sobre produção teatral é audaciosa”

 

A abertura do texto

 

Aspectos pessoais do estilo: a “trança”

 

O “precursor” e a questão dos tempos entrecruzados

 

 

 

Aula 9 – Contratransferência, catarse e elaboração

 

“A experiência de escrever”

 

Funções da escrita: o distanciamento para elaborar

 

Níveis de abstração: do empírico ao metapsicológico e vice-versa

 

Utilização de diversos referenciais teóricos

 

 

 

Aula 10 – Efeitos da interpretação transferencial

 

A organização da transferência

 

Aspectos metapsicológicos

 

Interpretações: do equívoco à mudança no funcionamento da paciente

 

As metáforas

 

As angústias narcísicas e as defesas contra elas

 

O lugar do Édipo

 

 

 

Aula 11 - Lógica da argumentação

 

Estilo pessoal ou erros de gramática?

 

A qualidade do raciocínio

 

Coerência entre argumentos e exemplos

 

Equívocos comuns na argumentação

 

Uma metáfora bem empregada

 

 

 

Aula 12 – O estilo kleiniano

 

As três sessões de Leon

 

A interpretação da sexualidade

 

A cisão como defesa contra traumatismos sexuais

 

 

 

Aula 13 – Romance policial e tese de Psicanálise

 

“Lógica” e “inspiração”

 

As regras do jogo: respeito pelo leitor

 

Arbitrariedades

 

Dimensões pulsionais da escrita

 

 

 

Aula 14 – Um atendimento no hospital

 

“Marcela”

 

As epígrafes

 

Continuidade no texto e literalidade na transcrição

 

O processo terapêutico

 

 

 

Aula 15 – Um lapso contratransferencial

 

“Príncipe plebeu”

 

Aspectos formais do texto

 

A “transparência” do analista

 

Determinação do tipo de conflito

 

 

 

Aula 16 – Casos clínicos no contexto da tese

 

“Passagens trágicas na clínica psicanalítica”

 

Método e arquitetura nesta tese

 

Travessia do trágico e mudança nas identificações

 

Deleuze e o pensamento francês contemporâneo

 

Índice remissivo

 

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