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Resenhas

A Invenção do Psicológico: quatro séculos de subjetivação 1500 - 1900, Escuta, 184 pp., 2007

01/07/2008 - Luís Cláudio Figueiredo

A construção da identidade e a delineação do estilo psicológico foram trabalhados por Figueiredo ao longo dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, tempo esse escolhido para falar do lugar ocupado pelo homem e de sua subjetividade.  E justamente para falar da desmistificação desse lugar evocou inicialmente a Giordano Bruno (1584) para lembrar da ausência de centros e de margens – o mesmo que dizer que não há um centro, um lugar pré-determinado. Traz ao texto as características e algumas articulações históricas, e outras vezes particulares, de cada época. Ao referir-se ao século XVI, afirma categoricamente que “não foi apenas o século em que as variedades, as combinações e misturas, as transformações, as perdas de identidade e as diluições dos limites puderam ser tolerantemente percebidas, acolhidas e mesmo produzidas deliberadamente. Foi o século do medo das margens e fronteiras e o século da memória” (p. 36), memória como instrumento de armazenagem de conhecimentos, de iniciação científica – era do tempo dos descobrimentos marítimos.  O século XVII é o do “sujeito epistêmico”, o que exigiu a “cisão da subjetividade: de um lado, a subjetividade confiável, regular, porque sempre idêntica a si mesma (...) de outro, a subjetividade suspeita, volúvel, inconstante, imprevisível” (p. 88). Talvez tenha sido o momento inaugural do abandono dos conhecimentos parcamente adquiridos, a abertura para novos saberes. O século XVIII portou o “grande florescimento das sociedades secretas. Nessas sociedades, mais talvez que na própria família, a privacidade era garantida e defendida contra seus eventuais inimigos” (p. 116). Foi este o momento em que mulheres e crianças passaram a ocupar um espaço próprio. O século XIX foi marcado pelo liberalismo, pelo romantismo e pelo regime disciplinar. O liberalismo trazia a separação entre o privado e o público; o romantismo a impulsividade alheia ao campo das conveniências, e o regime disciplinar as tecnologias de poder sobre as identidades constituídas ou fracamente constituídas. De Balzac e Montesquieu a Foucault e Habermas, o autor circula pelo tempo oferecendo ao leitor algumas “conspirações” das quais participaram o Estado e a Igreja, dois lugares de exercício do poder e assujeitamento. Por que teria encerrado sua análise em 1900?

 

 Sumário

Apresentação

Advertência

A desnatureza humana ou o não no centro do mundo

Uma santa católica na idade da polifonia

                A multiplicação das vozes

                A variedade das coisas

                Identidade e conversão

                A nostalgia dos anos dourados

                Reformas

                Reformadores católicos

                Uma santa católica na idade da polifonia

                Notas

Identidade e esquecimento: aspectos da vida civilizada

                A atualidade de Cervantes

                Imagens da civilização

                Subterrâneos da civilização

                A dupla filiação da psicologia

                Notas

A representação e seus avessos

                O público e o privado: raízes de uma cisão

                A consolidação da privacidade

                A privacidade militante

                Do iluminismo ao romantismo: a floração da privacidade na Alemanha

                A síntese mesmeriana

                Os usos da privacidade

                Notas

A gestação do espaço psicológico no século XIX: Liberalismo, Romantismo e Regime Disciplinar

                As vicissitudes do liberalismo e do individualismo

                O romantismo: promessas e realizações

                O território da ignorância

                Notas

Para além do estilo. Um lugar para a Psicologia

                O Duque Jean de Esseintes, vida e obra

                Estilismo e excentricidade

                Para além do estilo

                Notas

Referências Bibliográficas

 

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