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Resenhas

A Hora da Estrela, Rocco, 87 pp., 1999

01/05/2016 - Clarice Lispector

Clarice Lispector, Rocco, 1999, 87 pp.

Escrito à espreita da morte, começa com questionamentos quase que existenciais colocando o desejo em xeque em relação às respostas que conseguira dar e também indagações que conseguira formular. Como um grito agonizante, a obra é um continuo mergulhar em vazios e plenitudes recheados de palavras - o seu instrumento de todas as horas. “O que amadurece plenamente pode apodrecer”, dizia Clarice, que teve na incompletude o seu terreno para viajar e dilacerar-se, para abandonar definitivamente o sentido prêt-à-porter. Na segunda terça parte do livro, começa a sua história, ou melhor, a da personagem que chamou de Macabéa (carinhosamente conhecida como Maca). A primeira tinta que ganhou foi a da incompetência. Desajeitada, idiota de leve, encardida e à toa eram alguns outros atributos. A datilógrafa nordestina tratava de viver sua vidinha sem muito esforço, “em câmara leeeenta”, pagando as suas continhas e aproveitando o tempo para não fazer nada. Olímpico de Jesus era seu namorado, um operário metalúrgico ambicioso, com sonhos olímpicos - e talvez por isso, logo se encantou por Glória, amiga da insossa Maca (talvez formassem um casal de mais classe, afinal, a glória é reservada aos deuses do Olimpo). O cotidiano era tudo para Maca, até o dia em que foi visitar Madama Carlota: “pela primeira vez ia ter um destino”, e recebera um da cartomante assim que saiu de sua sala. Ao atravessar a rua, “um transatlântico Mercedes amarelo pegou-a” - uma mudança em sua vida marcada pelo luxo, interessante destino para quem dizia que “ter futuro é luxo”. Ganhou os dois de uma só vez! Depois de um fim iluminado à apagada vida de sua personagem, Clarice parece desabafar em suas últimas linhas: “Macabéa me matou!” Clarice morrera em 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro, sendo esta a última obra publicada em vida.

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