Imagem Ilustrativa
_

Resenhas

A Escrita no Limiar do Sentido, Escuta, 128 pp., 2007

01/10/2007 - Adriano Martendal

Há momentos em que, diz Giorgio Agamben, no decorrer de sua relação com certos textos, o intérprete percebe a impossibilidade de prosseguir sua análise sem se deixar confundir com o texto estudado. É quando não é mais possível distinguir o autor do intérprete. Se parto dessa glosa, é porque tomo nela um ponto de apoio para designar o trabalho de Adriano Martendal não como mais um livro sobre Clarice Lispector, entre tantos concorrentes a engordar a fortuna crítica da escritora, mas como uma proposta de interpretação na qual se reserva um lugar ao leitor.

 

Não se trata tanto de abandonar o texto, mas de retirá-lo das redes contextuais de leitura que o tornam reconhecido como peça literária. Trata-se, antes, de mergulhar nos meandros da escrita dada a ler sem levar em conta os aportes interpretativos construídos a priori, mesmo sob o risco de cair na banalidade. Afinal, este é o lazer dominical a que nos convida o autor. Sub-repticiamente, ele nos faz seguir o movimento banal do cotidiano, oferecendo-nos como veículo condutor alguns textos de Clarice Lispector.

 

O tom barroco interposto às primeiras palavras do livro com as quais respeitosa e admiravelmente Adriano Martendal se refere a Clarice, ressoa como a voz do mestre de cerimônia de um parque de diversões convidando os transeuntes a experimentar as delícias que os aguardam no centro de um colorido carrossel. Por isso mesmo, Macabéa é a estrela guia dessa aventura: “Domingo ela acordava mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada”. Nisso reside a empresa maior deste livro: metaforizar a experiência do leitor singular no momento em que ele se constitui sujeito atravessado por uma textualidade. Isso se dá a ver em uma exploração analítica que minimiza a obrigatoriedade de atribuir sentido a tudo que lê e se vê.

 

Tudo se passa pela desconcertante via do não-sentido: não existe nada a ser interpretado. O Lewis Carroll que Adriano convoca é retirado de um contexto filosófico rigoroso para funcionar ludicamente como um objeto operador de entretenimento, ou seja, sem quê nem para quê. “Qual a necessidade de atribuir sentido permanentemente a tudo?”

 

Para quem estiver tocando o livro em alguma estante, a sugestão é de folheá-lo não como quem procura pistas a partir de leituras já dadas, mas como quem quer liberar o texto de Clarice Lispector dos contextos interpretativos inquestionavelmente já legitimados. Assim o comparecimento de Heidegger, Agamben e outros como possíveis contextos de interpretação não valem como adição ao que falta. Os dispositivos de leitura dos quais se serve Adriano valem mais como indicadores de uma rarefação, ou seja, apontam para toda fortuna crítica operativamente amputada na proposição lúdica aqui oferecida.

 

Por certo, quis arriscar a supressão no campo textual da crítica clariceana para dar realce não a novas e inusitadas possibilidades de leitura, o que lhe soaria pretensioso, mas a outras alternativas de constituição de sujeito-leitor. E dizer dos atos de leitura que, na própria escrita de Clarice Lispector, permanecem abertos a leitores quaisquer. E se o sentido é já natimorto, o nonsense é lugar eterno de nascimento.

 

Prof. Dr. Pedro de Souza, Professor de Lingüística UFSC

 

Sumário

 

Apresentação, por Dany Al-Behy Kanaan

Introdução

1. Uma marca indelével

2. A produção de sentido

3. A circulação do non-sens

            Um desentendimento nodal

            A morte, simplesmente

            Arruaças

4. Uma morte anunciada

5. De um só fôlego

6. Dura escritura

7. Os outros

8. O coelho de Haia

            As obras de Clarice

            Lewis Carroll

            Albert Camus

Palavras finais

Referências

 

           

 

 

< voltar