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Resenhas

A Escritura Nômade em Clarice Lispector, Argos, 284 pp., 2001

01/02/2007 - Simone Curi

Simone é uma apaixonada por Clarice. Concebe a sua ficção como um mosaico, uma colcha de retalhos: “sem respeitar direitas ou esquerdas, cresce tanto em longitude quanto em latitude”. Trilhando a escritura a partir do nomadismo dos sentidos, inscrito sob um certo imobilismo (construção deleuziana), chama a atenção do leitor por ter Clarice se utilizado da língua portuguesa para poder ali construir sua ginga, um lugar onde pudesse ser verdadeiramente lis pector, e assim dar vazão ao seu multifacetado ser: “Clarice inventa um prodigioso gaguejar no interior da língua portuguesa, uma linha de fuga da linguagem, um bilingüismo na própria língua”. Talvez esse grande coração abarcasse duas terras, e provocasse o conhecido movimento tão intenso de produção (um movimento imobilizado, angustiado). O bilingüismo é, antes de mais nada, o da corrida da construção e o da desconstrução quase que simultânea de sua textualidade ordinária. Segundo a autora, esse movimento enseja a restituição de uma originalidade desconhecida. Em outras palavras, a meu ver, aquilo que dá as caras nas vitrines do cotidiano. Esse desconhecido aponta para aquilo que certamente pensou, em Benjamin, o banal, o ócio, o voyeur da polis: vê, mas nada fala, uma participação marcada pela ausência presente. Curi elege O Seco Estudo de Cavalos para falar, quem sabe, do primitivo da linguagem, ou melhor, do manuseio exercido por Clarice e também de sua destreza. Extraiu uma frase singular de Onde Estivestes de Noite que bem expressa essa relação: “Todo cavalo é selvagem e arisco quando mãos inseguras o tocam”. Toda essa destreza dizia respeito ao escorregar das palavras por entre os textos, a uma domesticação que lhe permitia não mais que quase manipulá-las. Impressiona como Curi consegue em sua textualidade aprisionar o leitor e lançá-lo, ao mesmo tempo, a um dinamismo tipicamente clariceano, um fluxo que toma para si a responsabilidade por um movimento pulsátil condutor de significações iminentes. O real sem dúvida a tocou, e percebi que se sentiu também atada por ele, sabendo que o máximo que poderia propiciar ao leitor seria o oferecimento de um sentido precário, quase inexistente e que precisava de urgente intervenção. Em suas palavras, ofereceu a “lama primordial”; em minhas palavras, soube conduzir com maestria o leitor ao vale fértil da experiência. Do livro A Maçã no Escuro aproveita igualmente para falar do homem comum – de um homem muito comum: “Quase nada dele se conhece, exceto a desordem em que se encontra”. De que desordem fala? Não é aqui que o homem se mostra, em sua desordem? Não é ela a manifestação de uma possibilidade de edificação do nouveau sens? Mais que isso, não é essa a prima condição para que a esperada metamorfose aconteça? Sim, e Curi nos lembra que é preciso um ato transgressivo para romper essa barreira (a barreira do recalque): “Atravessar, transgredir as aparências de que o cotidiano se reveste, em busca da expressão autêntica, exilada na região escura, desconhecida, onde a palavra é o fruto proibido”. Da confusão nasce um novo nome a ser impresso: “Sacro: desconstrução de toda significação para chegar à não-significação. Uma chamada a experimentar a vertigem da não-significação, cumplicidade pedida ao leitor”.

Sumário

 

Capítulo I – A Escritura Menor

1 micropolítica

2 imprensa

3 o estrangeiro

4 a escritura, a loucura

5 o nomadismo

 

Capítulo II – O movimento do Texto

1 primeiro estudo

2 ovo e galinha

3 uma relação

 

Capítulo III – O Movimento e as Personagens

1 conjugação de aprendizagens

2 conjugação de corpos

 

Capítulo IV – O Livro Nômade

1 a viagem

2 o crime

3 os reinos

4 a linguagem

5 conjugações cabralinas

6 as ´fracturas´

7 a nomeação

8 as relações

9 o retorno

 

Capítulo V – O que te escrevo continua

 

Correspondência

 

 

 

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