Imagem Ilustrativa
_

Artigos

Um objeto de estimação

O sintoma é um dos conceitos da teoria psicanalítica que tem, em torno de si, uma das mais variadas tramas conceituais. Talvez por isso, haja um grande intento querendo cercá-lo, querendo dar-lhe forma, enfim situá-lo. Lacan procura referir-se ao sintoma especificamente como manifestação na estrutura neurótica, enquanto reserva à psicose e à perversão os delírios e os atos, respectivamente. Assim, vamos tratar do sintoma (neurótico).

A Psicanálise trava com o sintoma uma relação muito especial, talvez única se comparada ao sintoma clínico da Medicina e ao sintoma tão trabalhado pelas centenas de terapias que circulam na praça. Por mais estranho que pareça, é para a Psicanálise primordial conservá-lo, provocando uma retificação subjetiva a partir de sua análise. Por quê? Justamente porquê o sintoma é a marca de cada um, formado a partir de sua história singular, traduzindo a verdade de cada sujeito.

Simples não? Pelo contrário, o sintoma toma, propositalmente, uma trajetória escamoteada, com o único fim de tornar-se inapreensível, preservado e muito bem guardado. É no mínimo paradoxal, uma vez que o sofrimento causado por ele não quer se desfazer, provocando aí um gozo!

O sintoma é pura metáfora e, portanto, não é compreensível a primeira vista. Como já vimos, toma uma via tortuosa para se expressar, desviando e deformando-a. Mais parece uma brincadeira de criança: enquanto se preserva quer se mostrar, enquanto se encobre desvela uma ponta. Ora, se o sintoma é um estar e não estar, podemos pensar que representa algo ou que substitui algo (ainda não articulado): a sua verdade.

O que pensou Freud?

De los síntomas neuróticos sabemos ya que son efecto de un conflicto surgido en derredor de un nuevo modo de satisfacción de la libido. Las dos fuerzas opuestas se reúnem de nuevo en el síntoma, reconciliándose, por decirlo asi, mediante la transacción constituida por la formación de síntomas, siendo esta doble sustentación de los mismos lo que nos explica su capacidad de resistencia. (FREUD, 1981, p. 2346).

Nos lembra que a etiologia do sintoma está relacionada à história sexual infantil, mas ao mesmo tempo, que uma profilaxia por parte dos pais nesse sentido seria totalmente infrutífera. De qualquer forma, por se tratar de uma relação singular (impossível, portanto, de interferência), a formação do sintoma irá prevalecer em torno a uma reação substitutiva da satisfação não obtida, real ou imaginária.

Há com o sintoma uma íntima relação: “los síntomas neuróticos poseen un sentido que los enlaza estrechamente a la vida íntima de los enfermos” (FREUD, 1981-A, p. 2290). Não é suficiente nem mesmo salutar estabelecer assim uma relação de causalidade (sinto medo porque quando era criança ...), até porque esse circuito não se dá conscientemente, dito de outra forma, a consciência está aí justamente para manter um encobrimento.

É preciso lembrar aqui que por trás de um sintoma há um desejo e o objeto do desejo é sempre perdido. O sintoma é, pois, um modus operandi do desejo que faz o sujeito “lembrar” o esquecimento de algo esquecido, de algo inconsciente em insistente busca de expressão.

Qual a função do analista diante de um alguém que quer saber de si? Fazê-lo falar, para que surjam as inscrições que até então não conhece, mas que se fazem exibir. A diminuição da ação da resistência aliada à eficaz associação livre são as ferramentas para acessar as representações a qual o sintoma está interposto e verificar seu sentido:

Será (...) siguiendo las cadenas asociativas inconscientes que el análisis de los síntomas permitirá leer en su texto las marcas del deseo inconsciente. (...) el deseo circula entre los significantes dejando su huella, entre líneas. (RUBISTEIN, in Diversidad del Síntoma, 1996, p. 26).

Assim, acho que já podemos dizer que o sintoma funda-se no real, ali no não-possível de penetrar. Essa é a maior justificativa para a dificuldade de cercá-lo na análise, é como querer tocar na ferida que arde e lateja no tempo. Por isso o paciente fala e não diz nada, censura-se, para que não haja possibilidade de defrontar-se, nas entrelinhas, com o âmago de sua questão fantasmática.

O que é então a cura propalada pela Psicanálise, se não é a exclusão do sintoma? Sacar o sintoma do sujeito é como arrancar-lhe de sua história, o que seria impossível. Curar o sintoma é então fazer com que se situe em sua história e saber no que está atrelado. A cura refere-se então ao saber, ao saber acerca das articulações significantes, acerca do inconsciente buscado na análise e ancorado no sujet supposé savoir.

É sobre o s.s.s. que se verga esse “querer” (desejo mais tarde) daquele que busca a análise, que diz querer livrar-se de seu sintoma, mas ao mesmo tempo, não quer tanto assim. Essa incompatibilidade entre desejo e verbo encobre a verdade que não aparece. É desse lugar ocupado pelo analista que irá surgir, através da transferência, o desejo de saber.

Se há dificuldade na relação de saber do sujeito com seu sintoma é porque o sintoma está estabelecido sobre um significante que se relaciona com outros significantes em infinitas cadeias significantes. Imprescindível então retomar las huellas, como já vimos, nesse jogo de esconde-esconde.

A fantasmática, parte deste processo segundo Freud, é melhor trabalhada pelo artista. A arte é um meio de retomar o caminho a ser necessariamente percorrido, permeado de gozo e resistências:

La diferencia está en que los profanos no extraen de las fuentes de la fantasia sino un limitadísimo placer, pues el carácter implacable de sus represiones los obliga a contentarse con escasos sueños diurnos que, además, no son siempre conscientes. (FREUD, 1981, p. 2357).

Assim, o artista parece conseguir chegar mais próximo à verdade suplantada pelo sintoma. Não seria imprudente extrapolar para dizer que um significante pode ser extremamente marcante em sujeitos de uma mesma comunidade (pensando na sintomatologia moderna), e expresso através de uma manifestação coletiva como, por exemplo, a música.

Conveniente lembrar que o tango é mais que uma expressão da identidade nacional, é um sintoma arrebatador que evoca ao mesmo tempo prazer e tristeza, gozo e padecimento na história de um povo. Esse estilo, que já se tornou de estimação, está longe de ser deixado para trás en las noches porteñas.

 

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


EOL. Diversidad del Síntoma. Buenos Aires. 1996.

EVANS, Dylan. Diccionario Introductorio de Psicoanálisis Lacaniano. Paidós
Buenos Aires. 1997

FREUD, Sigmund. Vias de Formación de Sintomas [1916]. Obras Comple -
tas. Tomo II. 4ª Edición. Biblioteca Nueva. Madri. 1981

_______________. Sentido de los Síntomas [1916]. Obras Completas. To
mo II. 4ª Edición. Biblioteca Nueva. Madri. 1981-A

< voltar