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Reconstruindo a Fantasmática

“Os pacientes estão sempre dizendo a verdade quando dizem que não têm ‘nada a dizer’, mas para encontrar esse ‘nada a dizer’ é preciso falar. A arte do analista é bem a de solicitar a palavra até que se esgotem as ‘últimas miragens’. O silêncio do analista convoca esse nada a dizer. Não é uma demissão nem uma ausência, e o silêncio que instaura não é um vazio mas uma ‘outra presença num silêncio compartilhado.’”[1]

 

O conceito de fantasma começou a surgir ainda nos últimos anos do século XIX, enquanto Freud trabalhava com suas histéricas. Em 1897, se dá conta que as lembranças de sedução não são necessariamente marcas de um abuso sexual real, mas sim um produto fantasmático que se operou na linguagem.

O abuso sexual na infância - que já moveu tantos processos judiciais, presença constante na própria fantasmática dos pais em relação à admoestação de suas crianças, ganha outra cor após o estudo e a análise deste importante e determinante conceito psicanalítico.[2]

 

“Ao que Freud renuncia é pensar que a cena traumática tenha que buscá-la na realidade material (...) Há lacunas no relato dos acontecimentos e o que vêm a preenche-las são as fantasias – cenas que ocupam o lugar deixado vazio pelo significante mesmo, porque algo é impossível de representar”.[3]

 

Freud em 1919, no texto intitulado Uma Criança é Espancada, traz logo no início de seu escrito que a fantasia é um sinal primário de perversão que pode ou não perdurar na vida adulta. Ora, quem ainda não presenciou uma criança sendo castigada? Parece que esta cena é capaz de reunir, através da própria fantasmática daquele que vê, os três momentos da produção do sujeito.

Isso faz o trabalho psicanalítico se voltar aos primórdios da vida infantil – entre os dois e os cinco anos. Freud adverte aqueles que desprezam esse significativo momento da vida, por ser ele justamente aquele onde “despertam e são enlaçados a determinados complexos pelas experiências do sujeito os fatores libidinosos congênitos.”[4] Após esse período, começam as fantasias de flagelação. Vamos aos três momentos caricatos desse processo:

1 uma (outra) criança é maltratada por um adulto, que inequivocamente é o pai;
2 meu pai me bate;
3 meu pai bate na criança que eu odeio.

Essa última apresenta uma condição de intensa excitação sexual, repercutindo em uma satisfação onanista. Isso é compreensível:

 

“A idéia de que o pai castiga aquela criança odiada será, pois, muito agradável e surgirá independentemente do fato de ter presenciado ou não tal acontecimento. Tal idéia significaria: ‘O pai não quer a esta outra criança; só quer a mim’, (...) A fantasia satisfaz claramente aos zelos da criança e depende diretamente de sua vida erótica, mas é apoiada também com grande energia por seus interesses egoístas.”[5]

 

Fica assim estabelecido um clima de enamoramento, com o desejo, inclusive, de ter um filho com a mãe, ou no caso da menina, com o pai. A chegada de um irmão neste cenário, não poderia ter outra sensação senão a de traição e de infidelidade. Com a trajetória dos distintos momentos cumprida, há uma mudança de rota: a erotização é reprimida e o sadismo transformado em masoquismo em detrimento da culpa que se instalou, quiçá pela presença dos desejos incestuosos. A criança, objeto de nosso estudo, tornar-se-á assim uma neurótica:

 

“o complexo de Édipo é o verdadeiro nódulo da neurose; e a sexualidade infantil que nele culmina, a verdadeira condição da mesma, e afirmamos que os resíduos subsistentes dele no inconsciente representam a disposição a uma aquisição ulterior pelo adulto da enfermidade neurótica.”[6]

 

Ora, se todo esse conteúdo é reprimido, será pois conservado no inconsciente, passando a produzir efeitos futuros através da formação de sintomas. Nos diz então o sujeito que não sabe nada disso, pois confessar que sabe produziria a si mesmo uma grande violência. Resta, como a diminuta ponta de um grande iceberg, a vergonha - produtora do gozo.

Se há sintoma há mal-estar, e nessa condição é muito provável que esse sujeito, agora adulto, procure ajuda para livrar-se desse sofrimento que além do mais, o envergonha. É importante lembrar que o sintoma é formado a partir do abandono e da renúncia da satisfação sexual sem possibilidade de sublimação, o que torna as fantasias inconscientes suas premissas psíquicas imediatas.

 

“No curso da cura, o analista reconstrói o fantasma do analisante com todos seus detalhes. No entanto, o tratamento não se detém aí; o analisante deve continuar até ‘atravessar o fantasma fundamental. (...) a cura deve produzir alguma modificação do modo de defesa fundamental do sujeito, alguma alteração em seu modo de gozo.”[7]

 

“o trabalho analítico aspira a induzir ao paciente a que abandone suas repressões (usando a palavra em seu sentido mais amplo), que pertencem à primeira época de sua evolução, e a substituí-las por reações de uma classe que corresponderiam a um estado de maturidade psíquica. (...) Sabemos que seus atuais sintomas e inibições são conseqüências de repressões desta classe, quer dizer, que são substitutos das coisas que esqueceu.”[8].

 

Há um trabalho de (re)construção a ser feito em análise. Somente aí ele é possível. Tudo está disponível, embora pareça ao contrário, “inclusive aquelas que parecem totalmente esquecidas”, lembra Freud. Cada fragmento vai sendo reelaborado a seu tempo, driblando a repressão, até chegar a um nível razoável que permita ao paciente aproximar-se da verdade e rever seu modo de gozar.

A arte está em refazer as conexões esquecidas e rechaçadas, que a todo custo são evitadas pelo sujeito. Diz costumeiramente: “disso sei muito pouco”, e então cala-se. Ora, nesse caso, tanto as suas poucas palavras como seu silêncio remetem à ação da repressão, da resistência de confessar o fantasma, pois o discurso permanece inalterado. Não é o silêncio um discurso sem palavras?

Interessante é que é através desse sem palavras que as conexões começarão a ser refeitas. Ao serem pronunciadas, as palavras ganham uma representação diversa daquela palavra que era guardada em seu estojo: o silêncio - processo desconhecido do sujeito ao qual o analista deve estar atento. É como uma armadilha na qual o próprio falante cai, desarticulando a própria resistência: “A resistência é o que faz obstáculo à fluição dos pensamentos inconscientes, ao desenrolamento da cadeia dos significantes, em resumo, ao advento do saber inconsciente.”[9]

O psicanalista deve evocar no analisante a fala, para que comece a dizer(-se). Mesmo se houvesse alguma forma de deixar um fato vivo e ao conhecimento de analista e analisante ao mesmo tempo, seria preciso dizer sobre aquilo para (re)significá-lo. Assim, o que ocorreu um dia em silêncio é agora atravessado pela palavra reposicionando o sujeito em sua própria fantasmática.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


EVANS, Dylan. Diccionario Introductorio de Psicoanálisis Lacaniano.
Paidós: Buenos Aires, 1997.


FREUD, Sigmund. Obras Completas. Uma Criança é Espancada. [   ] 4ª Edición. Tomos II e III. Biblioteca Nueva: Madri, 1981.

_____ Construções em Psicanálise. [   ] 4ª Edición. Tomos II e III. Biblioteca Nueva: Madri, 1981.

 

MASCARELLO, Tânia V. N. Fantasma: Algumas Pontuações, in Anais do 7º
Recorte de Psicanálise.


NASIO, Juan-David (org.). O Silêncio em Psicanálise. Papirus: São Paulo, 1989.

 

 


[1] Zolty, L., in Nasio, J.-D. O Silêncio em Psicanálise. Papirus: São Paulo, 1989, p. 170.

[2] inadvertidamente, muitas sentenças judiciais foram proferidas calcadas na má interpretação da fantasmática, conferindo-lhe o status de realidade

[3] Mascarello, T. V. N. Fantasma: Algumas Pontuações, in Anais do 7º Recorte de Psicanálise, pp. 85 e 87).

[4] Freud, S. Obras Completas. Uma Criança é Espancada 4ª Edición. Biblioteca Nueva: Madri, 1981, p. 2468.

 

[5] Op. Cit., p. 2470.

[6] Op. Cit., p. 2474.

[7] Evans, D.. Diccionario Introductorio de Psicoanálisis Lacaniano. Paidós: Buenos Aires, 1997, p. 91.

[8] Freud, S. Obras Completas. Construções em Psicanálise 4ª Edición. Biblioteca Nueva: Madri, 1981, p. 3365.

 

[9] Thomas, M-C in Nasio, J.-D. O Silêncio em Psicanálise Papirus: São Paulo, 1989.NASIO, p. 75.

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