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Quem é o adolescente do século XXI?

Quem é o adolescente do século XXI?

 

 

O período de transição entre a infância e a fase adulta tem sido motivo de inúmeros debates pelo mundo. Hoje suas fronteiras cronológicas caíram (anteriormente conhecido como a etapa entre 14 e 18 anos), levando-nos a conceituá-lo como um período transitivo no qual se espera encontrar ao seu final um sujeito com maturidade emocional, biológica e social – entenda-se aí o custeio de suas próprias necessidades. Pode-se dizer então, que alguém com 30 anos, morando com os pais, com suas contas pagas por eles, à procura de emprego (mas nem tanto) e incapaz de resolver suas “encrencas” do dia-a-dia ainda é um adolescente.

 

Qual a tarefa dos pais? A resposta costuma vir rápido e aponta para a imposição de limites. Se assim fosse, tão simples, os consultórios não teriam tantos adolescentes. O que se verifica na prática é a dificuldade da formação da identidade: o diálogo fica escasso, a arrogância na relação entre pais e filho prepondera, os amigos são sempre questionados, o dinheiro nunca é suficiente e a droga – a grande vilã da história, assusta. A função dos pais é fazer com que essa travessia se dê com os menores riscos e com grande vivência de sentimentos próprios à idade, a fim de estar o adolescente, em pouco tempo, preparado para as vicissitudes da vida. Se alguém disse que isso é fácil tenha a certeza que não sabia do que falava. Vejo pais angustiados sem saber agir, ou transmitir ao filho o que é responsabilidade, compromisso, respeito e também acerca das simples emoções da vida. Não muito bem sucedidos, costumam mandar o filho ao terapeuta – costumeiramente sugiro a esses pais um trabalho paralelo.

 

Onde está o elo aparentemente perdido nisso tudo? Na adolescência dos pais, que na fase adulta revivem os seus próprios conflitos ao sentir o filho com um problema (imagem especular), e como na maioria das vezes o seu próprio problema não teve um bom desfecho, não tem meios para auxiliá-lo. Isso certamente gera conflito, causado por frustrações dos dois lados. E também, pela frágil experiência de limite vivida na infância da criança que hoje é um adolescente. Certa vez escutei uma reclamação muito legítima de uma adolescente que atendi: “meus pais sempre deixaram eu fazer tudo que eu queria, e agora, simplesmente, me dizem não para tudo!” O problema, originariamente, estaria na adolescente ou nos pais?

 

Não esqueça que colocar limites não significa brigar, brutalizar, gritar, puxar o tapete, mas simplesmente fazer valer a função paterna, que com o silêncio de um olhar diz tudo sem pronunciar uma única palavra. O segredo (se não for presunção dizer desta forma) é começar cedo, tão cedo quanto possível, desde a mais tenra idade. Por exemplo, se a participação do filho nos afazeres domésticos é importante, por que esperar pela adolescência para que retire seu prato da mesa, por que não exercitar isso desde os sete anos (ou antes) quando já tem habilidade psicomotora para essa tarefa?

 

Os limites não assimilados pela criança retornarão na adolescência em maior escala, e aí as drogas têm papel fundamental: oferecer prazer sem limites. A grande virtude é transformar a tão conhecida imposição de limites num gesto íntimo e ao mesmo tempo firme, reconhecido certamente muitos anos mais tarde, talvez quando você já estiver com os cabelos brancos. Impor limites não é mandar fazer, é acompanhar, estar junto, trocar, agir com segurança (provavelmente isso acabará limitando você também). É isso que o adolescente do século XXI espera de você: sua efetiva participação!

 

Eis a marca de nosso tempo: a falta de limite, que acaba se transformando paradoxalmente em “uma pedra no meio do caminho”. Já que tudo é possível, já que os manuais perderam a validade e não são mais consultados, resta-nos, juntos, pais e filhos, co-participarem de um novo processo, passando a criar a partir de suas próprias experiências. É isso que nos reserva o novo século, portador dessa mudança de comportamento da qual não somos vítimas, mas agentes ativos em sua construção.

 

 

Artigo publicado no Informativo USIMED nº 25 (Florianópolis), em Outubro de 2004.

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