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O vaivém do verbo

 

En su esencia, la transferencia eficaz que estamos considerando es sencillamente el acto de habla. Cada vez que un hombre le habla a otro de un modo auténtico y pleno hay, en el verdadero sentido, transferencia, transferencia simbólica – algo que tiene lugar y que cambia la naturaleza de los dos seres presentes. (LACAN, 1988, p. 109).


O conceito de Transferência nasceu em Freud ainda no Século XIX, relacionado ao trânsito de afetos entre analisante e analista, obtido através do emprego da palavra dos dois personagens. Esta definição logo evoluiu, e passou-se a perceber sua magnitude e riqueza, bem como seus efeitos no setting analítico.

A abertura clássica de uma análise é marcada pela transferência e o analista deve mantê-la atuante a um preço alto: pagando com seu próprio ser. Muito mais que um relacionamento regado a amor ou ódio, trata-se de amor ao saber, proveniente somente da experiência analítica. Lacan afirmou que a transferência “consiste (...) en la estructura de una relación intersubjetiva” (EVANS, 1997, p. 191). Deixo por enquanto esse viés, pois não gostaria de deixar de abordar o exposto por Freud em seu texto de 1914, intitulado Observaciones sobre el Amor de Transferencia.

O amor da paciente pelo analista é uma cena freqüente e jocosamente lembrada pelo laico (ah!, analista, divã-cama, mulher, ...). Freud, no entanto, enfatizou sua importância no manejo da transferência. Trata-se simplesmente de uma mulher apaixonada por um homem? Não. Trata-se de uma paciente apaixonada por seu analista, ou melhor ainda, pelo lugar que o analista ocupa. Curiosamente, esta situação não deve ser rechaçada, mas sim trabalhada e usada a favor do tratamento:

Conservamos la transferencia amorosa, pero la tratamos como algo irreal, como una situación por la que se ha de atravesar fatalmente en la cura, que ha de ser referida a sus orígenes inconscientes y que ha de ayudarnos a llevar a conciencia de la paciente los elementos más ocultos de su vida erótica, sometiéndolos así a su dominio consciente. (FREUD, 1914, p. 1693).

Das pipocas saltitantes na panela da Psicanálise, vamos ao cerne da transferência: não há análise sem transferência. Assim, nesse vértice, a transferência pode funcionar como obstáculo, mas também como possibilidade de cura. Freud já dizia que a análise é o lugar onde dois sujeitos se falam - dois sujeitos do inconsciente! Dessa forma, é preciso considerar outros elementos, tais como a resistência, a pulsão e a repetição.

A resistência convive lado a lado com a transferência, uma vez que é quem “dá o ritmo” à trajetória do analisante, manifestando-se ampla e contrariamente ao prosseguimento da análise. É uma “incompatibilidad entre el deseo y la palabra” (LACAN, 1977, p. 275), portanto, um hiato entre aquilo que o sujeito gostaria de dizer e o que pode realmente dizer – um querer pela metade. Nos lembra Freud em A Dinâmica da Transferência, que a transferência é regulada, em intensidade e duração, pela resistência. É com a resistência do analista que o processo transferencial pode ser obstaculizado. A do analisante é natural, esperada:

La resistencia es el estado presente de una interpretación del sujeto. Es la manera en que, en ese momento, el sujeto interpreta el punto en que está (...) simplemente significa que él (el paciente) no puede moverse más rápido. (LACAN, 1988-B, p. 228).

A pulsão permeia a transferência. É o veículo que carreia a palavra através de um circuito que a faz ir e vir indefinidamente, não encerrando, portanto, nenhuma possibilidade de construção de um saber a ser sempre reelaborado. Se há um sujeito desejante, há pulsão, e essa é parcial justamente pela impossibilidade de tudo dizer. A repetição faz parte da transferência na medida em que o analisante repete em sua relação com o analista atitudes características de outras relações passadas em sua história. A repetição mais do que repetir, insiste, utilizando-se do verbo do analisante.

Mientras el sujeto permanece sometido al tratamiento no se libera de esta compulsión de repetir, y acabamos por comprender que este fenómeno constituye su manera especial de recordar. (FREUD, 1914-A, p. 1685).

O que seria da transferência sem o inconsciente? Nada! Se o inconsciente é estruturado como uma linguagem e dado a conhecer-se através da palavra, encontramos na transferência o sítio certo para perceber seus efeitos.

Mas precisamente, el inconsciente es el efecto del significante sobre el sujeto, en cuanto el significante es lo reprimido y lo que retorna en las formaciones del inconsciente. (EVANS, 1997, p. 111).

Recapitulando, a transferência está aí como um processo a ser transposto, contando com a ação dificultosa da resistência. A benesse é ter, através dela, acesso atualizado ao inconsciente, às conexões deixadas para trás - “a transferência é a atualização da realidade do inconsciente” (LACAN, 1988-C, p. 142).

O trabalho desenvolvido na transferência é o de (re)construir, tarefa exercida pelo analista quando reapresenta ao analisante um certo material esquecido. Não se trata de sugestão, mas sim de ir além da interpretação, apresentando-lhe o reprimido. O poder para isso é dado pelo próprio analisante com o estabelecimento da transferência.

Em jogo na transferência o desejo. O desejo de saber, ancorado na instituição desse suporte fundamental chamado sujet supposé savoir.

Se a psicanálise consiste na manutenção de uma situação acertada entre dois parceiros, que nela se colocam como o psicanalisando e o psicanalista, ela não poderia se desenvolver senão ao preço do constituinte ternário que é o significante introduzido no discurso que nela se instaura, aquele que tem nome: o sujeito suposto saber. (LACAN, in Proposição de 9 de outubro de 1967).

Ao sujeito desejante a Psicanálise pede que fale, simplesmente fale na presença do analista, pois ela é “capaz de permitir que o que é inconsciente possa despregar seus efeitos” (HARARI, 1990, p. 138), possibilitando a interpretação daquilo que deseja (é entre a palavra e a sua realização - o ato, que está o verdadeiro desejo).

A função do analista no manejo da transferência é pois escutar o mais além, ignorando o que sabe e rechaçando a compreensão. Em meio a esse zigue-zague, o verbo desliza entre o divã e a poltrona, numa operação ímpar e fundamental chamada Transferência.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

EVANS, Dylan. Diccionario Introductorio de Psicoanálisis Lacaniano. Paidós: Buenos Aires. 1997.

FREUD, Sigmund. La Dinâmica de la Transferencia [1912]. Obras Completas. Tomo II. 4ª Edición. Biblioteca Nueva. Madri. 1981.

______________ Observaciones sobre el “Amor de Transferencia” [1914]. Obras Completas. Tomo II. 4ª Edición. Biblioteca Nueva. Madri. 1981.

______________ Recuerdo, Repetición y Elaboración. [ 1914-A ]. Obras Completas. Tomo II. 4ª Edición. Biblioteca Nueva. Madri. 1981.

______________ Construcciones en Psicoanálisis [1937]. Obras Completas. Tomo III. 4ª Edición. Biblioteca Nueva. Madri. 1981.

HARARI, Roberto. Uma Introdução aos Quatro Conceitos Fundamentais de Lacan. Papirus. São Paulo. 1990.

LACAN, Jacques. Écrits. Londres, Tavistock Publications, 1977.

LACAN, Jacques. The Seminar. Book I. Freud’s Papers on Technique. Nueva York, Norton; Cambridge, Cambridge University Press, 1988.

LACAN, Jacques. The Seminar. Book II. The Ego in Freud’s Theory and in the Technique of Psychoanalysis. Nueva York, Norton; Cambridge, Cambridge University Press, 1988-B.

LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 11. Os Quatros Conceitos Fundamentais da Psicanálise. JZE. Rio de Janeiro. 1988-C.

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