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O Estabelecer de um Diferencial

É nos primeiros anos de vida do enfant que sua estrutura é determinada, definindo assim sua posição em relação ao Outro (castração). Surge uma questão que precisa ser balizada de início: pode haver oscilação entre estruturas ou um breve deslizamento entre elas, dando-lhe a possibilidade de estar indefinida (borderline)? Evans e Miller são pontuais:

 

“a estrutura fica fixada para sempre, sendo impossível trocar-la. (...) nem a cura nem nenhum outro tipo de tratamento pode converter um psicótico em um neurótico.”[1]

“Se há algo que a experiência psicanalítica pode ensinar é que existem estruturas e são sólidas, não se modificam e não passam de uma para outra.”[2]

 

Já temos um bom indício de começo: o diagnóstico diferencial é fundamental. A partir de então começa-se a trabalhar, guardadas as devidas particularidades de cada estrutura (Neurose, Psicose e Perversão), sem no entanto desprezar um ponto comum: tudo começa quando o discurso se inicia.

Estamos justamente falando das Entrevistas Preliminares assim chamadas por Lacan (denominadas por Freud de Tratamento de Ensaio), cujo um dos objetivos é o estabelecimento do diagnóstico através da escuta do analista ao dito pelo sujeito na transferência. Não é possível prever o tempo que isso demandará, mas é possível saber que não há total segurança em sua nominação. Joel Dor chama atenção para as inferências típicas da prática médica ao correlacionar o sintoma a uma estrutura clínica:

 

“Podemos (...) deduzir logicamente um diagnóstico de perversão a partir de um sintoma como o exibicionismo? O componente exibicionista revela-se, por exemplo, particularmente presente na histeria (...) A prática clínica ensina-nos que a relação que une o sintoma à etiologia da afecção que o produz, é intermediada pelo conjunto de processos inconscientes. A correlação entre um sintoma e a identificação de um diagnóstico supõe, a mínima, a atualização de uma cadeia de processos intrapsíquicos cuja dinâmica não se movimenta no sentido de determinismo causal comum.”[3]

 

Ora, se não há essa possível correlação, onde buscar elementos? É na fala do sujeito que o inconsciente pode ser decodificado, mostrando os motivos e os constructos elaborados que o levaram a edificar-se naquela estrutura. É preciso, no entanto, ir além da identificação da estrutura para poder chegar a atuar sobre o tipo clínico, tendo presente a estratégia a seguir. Como a Psicanálise pode atuar? É sobre isso que me proponho a tratar a partir daqui.

É na Neurose que Freud e Lacan situam o sujeito normal. Evans recorda: “A estrutura normal, no sentido do que se encontra na maioria estatística da população, é a neurose, e a ‘saúde mental’ constitui um ideal ilusório de totalidade que não pode alcançar nunca.”[4] Deixemos a normalidade por um momento e passemos às formas através da qual a neurose pode se manifestar: a histeria e a neurose obsessiva.

A histeria concentra-se na problemática do ter e do não ter (o falo), no questionamento “sou um homem ou uma mulher?” Em cena, a conquista do falo para possuí-lo. O histérico tem uma maneira muito peculiar em sua sintomatologia que se apresenta através da insatisfação: é a “problemática do ter, que representa o próprio epicentro da questão do desejo histérico.”[5] O homem se apresenta à mulher como aquele que não tem o falo e ela a ele como aquela que não é o falo, e é nesta inter-relação que o histérico interroga seu desejo no Outro. Para sair desse impasse, Lacan fez uma proposição que consistiu em aceitar a impossibilidade da posse do falo: ”aceitar não tê-lo é potencialmente poder identificar-se com aquela que não o tem mas que o deseja junto àquele que é suposto tê-lo.”[6]

A insatisfação gira em torno da relação amorosa frustrada, incompleta e aquém daquilo que esperava ser e ter para oferecer. Como assim não ocorreu, sente-se rejeitada (não amada o suficiente), e por isso faz-se parecer extremamente sedutora. Assim, fará com que os olhares retornem a ela.

 

“a histérica pactua facilmente com a dimensão do fazer parecer, através do que esforça-se para mascarar imperfeições com que se sente psiquicamente afetada. Tudo presta para servir de máscara: roupas, enfeites, representações, identificações ostensivas. Tudo vem a propósito para tentar tornar mais atraente ao olhar do outro algo que se presume não sê-lo.”[7]

 

O histérico masculino emprega mecanismos mais “disfarçados”, apresentando traços estruturais como a dor, a impotência, a ejaculação precoce, a fadiga, o fracasso e um mal-estar difuso. O característico por excelência é o acesso de cólera, desencadeado por uma contrariedade do dia-a-dia. A sedução também é uma constante, visto ser a dimensão do dar a ver comum à histeria feminina e à masculina. Quanto ao fracasso, na verdade, não é mais que um mecanismo que garante a insatisfação, denominado por Freud nesse caso de neurose de destino: “tudo se passa como se o sucesso desencadeasse um mecanismo de auto-punição para que a satisfação seja recusada” (DOR, p. 88).

A neurose obsessiva situa-se entre o ser e o não ser. Joel Dor denomina o sujeito como o “nostálgico do ser”. Igualmente calcada na relação com a mãe, difere da histeria por não apresentar déficit amoroso, justamente por ter a mãe procurado no filho o complemento para sua falta. Tanta atenção só pode resultar na “certeza” de ser amado:

 

“O excesso de amor testemunhado por todos os sujeitos obsessivos tem sua origem no dispositivo onde a sedução erótica materna constitui um apelo para suprir sua insatisfação. A criança é, de algum modo, chamada a suprir uma falha no gozo materno.”[8]

 

Têm como traços estruturais sintomas tão conhecidos quanto os da histeria: idéias recorrentes, impulsos a ações absurdas, superstição e rituais desprovidos de qualquer significação. O obsessivo tem que ganhar sempre, suportar e aceitar tudo, não deixando escapar nada, pois isso lhe remeteria à castração, criando assim uma marca narcísica. Irá pois, perseverar obstinadamente até o fim, a fim de assegurar o “controle absoluto do gozo” para que não corra o risco de ser remetido à falta.

O fazer-parecer da histérica leva-a a se fazer discurso do discurso de um outro, enquanto o discurso do obsessivo chega a ser inócuo, uma vez que não se permite associar para não perder o controle sobre aquilo que (não) diz: “a ponderação aparente dos obsessivos não tem outra consistência senão este controle permanente exercido sobre um fundo de isolamento”[9] e ainda em Freud, “os enfermos não conhecem o texto verbal de suas próprias representações obsessivas.”[10]

Ao passo em que Freud iniciou a Psicanálise através do estudo da neurose, Lacan centrou seu primeiro enfoque na Psicose: “O que é o fenômeno psicótico? É a emergência na realidade de uma significação enorme que não se parece com nada – e isso, na medida em que não se pode ligá-la a nada, já que ela jamais entrou no sistema da simbolização.”[11]

Tanto um como outro fizeram do Caso Schreber seu principal aporte para falar da psicose. Longe de ser passível de cura através da Psicanálise (o que é inclusive inadequado e contra-indicado), tem como traços estruturais (fenômenos elementares) os delírios, as alucinações, os neologismos, sem esquecer da perda da realidade (verificam-se intentos de negação e de substituição): “Freud (...) disse, que o que define a estrutura é o caráter do conflito e o que vai ser colocado no lugar da realidade.

Assim, se na neurose se tampa o buraco com o sintoma, na psicose se tratará de cobrí-lo com o delírio.”[12] Após algumas décadas de pura mitologia acerca da loucura, surge, nesta estrutura, um grande “divisor de águas”, como chamou Lacan no Seminário 3, estabelecido por Freud: de um lado a Paranóia e do outro as Esquizofrenias.

Acerca dos fenômenos de linguagem já referenciados, é sabido que o inconsciente não atua, embora presente, deixando de articular-se: “o que é recusado na ordem simbólica ressurge no real.”[13]. Se é assim, como fala o psicótico? A considerar as alucinações verbais, o sujeito só pode articular o que ele diz escutar, lembra Lacan (Seminário 3), porque daí não pode sacar-se: “É a linguagem, de sabor particular e freqüentemente extraordinário, do delirante.”[14] Essa articulação fragmentada nos conduz à cadeia significante que é estrangulada na psicose:

 

“É uma significação que basicamente só remete a ela própria, que permanece irredutível. O próprio doente sublinha que a palavra tem peso em si mesma. Antes de ser redutível a uma outra significação, ela significa em si mesma alguma coisa de inefável, é uma significação que remete antes de mais nada à significação enquanto tal.”[15]

 

Ora, se não há rolagem do significante (S1->S2->...Sn), não pode haver sujeito, pois esse é aquele representado por um significante para outro significante. Quem fala pois, fala a alguém e de algo, fala a um Outro, do Outro.

Originalmente tida como desvio da conduta sexual normal, a perversão em Lacan ganha o caráter de estrutura. Enquanto a neurose é pautada por uma indagação (ter ou não ter), a perversão é caracterizada pela falta de indagação (fica no limiar do ter e do ser) e pela renegação (desmentido) da castração, uma vez que o perverso não duvida que seus atos sirvam ao gozo do Outro. Ele burlará permanentemente a Lei para desafiá-la, para ver se a castração cairá sobre ele.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

DOR, Joel. Estrutura e Perversões. Ed. Taurus.

EVANS, Dylan. Diccionario Introductorio de Psicoanálisis Lacaniano. Paidós: Buenos Aires, 1997

FREUD, Sigmund. Obras Completas. Analisis de un caso de Neurosis Obsesiva [1909]. Biblioteca Nueva: Madri, 1981.
______ La perdida de la realidade em la Neurosis y en la Psicosis [1924].

LACAN, Jacques. Seminário 3 – As Psicoses. JZE: Rio de Janeiro, 1988.

MILLER, Jacques-Alan. Lacan Elucidado. JZE.

MONTERO, J.C. O Diagnóstico Psicanalítico da Psicose. Inédito.

QUINET, Antonio. As 4+1 Condições da Análise. JZE: Rio de Janeiro, 1991.

 

 

 


[1] Evans, D. Diccionario Introductorio de Psicoanálisis Lacaniano. Paidós: Buenos Aires, 1997, p. 84.

[2] Miller, J. Lacan Elucidado. JZE, p. 128.

[3] Dor, J. Estrutura e Perversões. Ed. Taurus, pp. 26/27.

[4] Evans, D. Diccionario Introductorio de Psicoanálisis Lacaniano. Paidós: Buenos Aires, 1997, p. 137.

[5] Dor, J. Estrutura e Perversões. Ed. Taurus, p. 69.

[6] Op. Cit., p. 70.

[7] Op. Cit., p. 78.

[8] Op. Cit., p. 102.

 

[9] Op. Cit., p. 108.

[10] Freud, S. Obras Completas. Tomos II e III ?. Biblioteca Nueva: Madri, 1981, p. 1474. – texto ?

[11] Lacan, J. Seminário 3 – As Psicoses. JZE: Rio de Janeiro, 1988, p. 102.

[12] Montero, J.C., O Diagnóstico Psicanalítico da Psicose, inédito.

 

[13] Lacan, J. Seminário 3 – As Psicoses. JZE: Rio de Janeiro, 1988, p. 22.

[14] Op. Cit, p. 42.

[15] Op. Cit., p. 43.

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