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Estéticas Brasilianas

Depois de centenas de milhas navegadas, na maioria do tempo acompanhado pela solidão azul do Atlântico e ainda, em raros momentos, por exímios e exibidos albatrozes, aportamos naquela que um dia foi a capital do Brasil, Salvador.

 

De volta a lugares conhecidos, ao contato com o inquietante e histórico sincretismo religioso daquela gente, desde as mais tenras horas da manhã recebia a acolhida dos habitantes da rua. Queriam afoitamente vender, ganhar um tostão – pouco, mas não importa, e em mais uma de tantas interceptações ouvi algo que deixou minhas orelhas latejando por alguns dias. Dizia o rapaz, talvez com 18 anos: “Ei, moço, não liga não, mas aqui a sobrevivência depende da insistência”.

 

Precisava me livrar disso, e à noite, ligando a telinha para ver qualquer coisa, conectei-me a um programa inteligente, conduzido também por uma entrevistadora que julguei inteligente, até receber outra bomba nos ouvidos. Perguntava retoricamente ao entrevistado: “O que você espera para o próximo ano?”

 

Foi o suficiente para um curto-circuito de inteligências que falam de lugares diferentes: o da insistência e o da espera. No primeiro pestanejar veio à cabeça que aquele arruaceiro sabia falar dessa espera de uma maneira original. Provavelmente nunca lera Freud nem Lacan, ou qualquer filósofo da moda, mas sabia, de algum jeito, que esperar é mais que um vernáculo, é um gesto que faz pensar no jeito de existir.

 

Confesso que tenho um sentimento ainda meio intraduzível por aqueles que esperam, que esperam, sobretudo, a badalada derradeira que anuncia a chegada de um novo ano. Quem conhece um pouquinho do mundo (um pouquinho já basta) e um pouco do Brasil, sabe que nosso povo é um sobrevivente, que vive de invenções que nascem de uma criatividade que grita.

 

 

Feliz Ano Novo! Amanheceu o dia 1º de janeiro e o baianinho já está nas ruas. Ao zarpar da terra soteropolitana, deparei-me com uma daquelas pesquisas de opinião que perguntava antecipadamente: “Fomos capazes de satisfazer suas ilusões?”.

 

Ora, do que estamos falando? Se pensarmos bem, a espera, a insistência e a satisfação estão calcadas sobre uma ilusão, a de que algo venha e seja capaz de completar uma falta. “Insista que você consegue”, teriam dito nos ouvidos daquele rapaz por muito tempo, assim como “quem espera tudo alcança”, faria uso o televisivo da noite natalina.

 

Na clínica do cotidiano escutamos queixas intermináveis e infinitamente renováveis de grande apego às ilusões, bóias existenciais de muitos alguns: ilusões com o paternalismo estatal, que deveria dar alimento, educação, saúde, transporte e mais uma infinidade de coisas (o Estado-Pai deveria bancar o sustento dessas e de outras necessidades para que o existir fosse possível); com o namorado, que não é o príncipe encantado com quem a moça sempre sonhara, desde menina; com o pai, ausente ou que “não larga do pé”; com o trabalho, que remunera injustamente, e tantas outras ingênuas esperas ilusórias.

 

Um amigo me recordava dia desses ser a felicidade uma “dádiva misteriosa” que as crianças imaginam que os adultos usufruem e, por outro lado, é também uma esperança que provoca nos adultos um retorno à infância. A busca do elo perdido, sua hipotética restauração, aparece, pois, de infinitas maneiras e em distintas circunstâncias incessantemente, até o amanhecer do dia seguinte, do ano seguinte, do casamento seguinte, ou do próximo filho ou, por que não, das chaves do novo apartamento. Satisfações experimentadas que se transformam imediatamente em falta, uma interdição que saboreamos todos os dias.

 

Deixando de lado a retórica dos televisivos (termo de que desconfio, por não se tratar somente disso), retorno à insistente existência daquele que caminha pelas ruas. Evoco aqui, rapidamente, Pedro de Souza: “o pedestre está sempre diante de uma ordem simbólica que se materializa ali e que funciona dizendo quem ele é no momento em que, ao transitar, é interpelado por um enunciado de interdição”[1]. A interdição é um ato constitutivo e o dizer que “minha existência depende da insistência” o faz sujeito de seu próprio ser. O baianinho, de quem infelizmente não sei o nome, sabia sem saber da própria constituição instaurada a partir do laço social. Baianinho porreta!

 

Recordo ainda a salvaguarda oferecida: “Si u sinhô comprá di mim, ninguém mais vai lhi incomodá”, pois há um código entre os baianinhos que funciona na prática: a fitinha amarrada ao pulso significa que não deve mais ser incomodado. O lugar-comum passa a ser um lugar único de inscrição desse sujeito, um espaço conquistado que vai além do espaço territorial, o espaço da linguagem. Ganhou seu trocado, trocou com um Outro, foi ouvido. Certeau, ao tratar das práticas cotidianas, qualifica esse instante do ato de falar como uso da língua e de uma operação sobre ela.[2]

 

Se algo insiste, esse isso é o inconsciente. Mas onde está o inconsciente nessa fala tão corriqueira, repetida e cansada? Poderia responder a essa questão de algumas maneiras. Vejamos a primeira. Parece-me que o frontal discurso faz pensar em uma política ética, que encara, tête-à-tête, a dificuldade do cotidiano com uma solução que talvez não seja a mais adequada, mas que se dá por uma via de gozo[3]. A relação que trava com o Outro, materializado por um instante pelo outro que compra e lhe dá orelhas, remete-me à segunda questão, a mais importante: a fórmula lacaniana de que “o inconsciente é o discurso do Outro”, lançando-me ao gozo de minha própria existência.

 

Nesse ponto, ética e estética voltam a se confundir, e posso perfeitamente pensar na escansão de uma sobre a outra. Estética cosmética à parte, a estética brasileira vive seu amadurecimento em cada recanto, com a singularidade que não é nacional, sequer regional, mas única em cada sujeito, a partir de uma maneira própria de bem-dizer-se. O gestual lingüístico ao qual me referi no início do texto leva-me às palavras de Manoel de Barros: “repetir repetir – até ficar diferente”[4], pois a é(ste)tica exige do sujeito falante um lugar a ser reconstruído constantemente, a ser delimitado, da ordem do real, até que se possa significar seu próprio dizer.

 

Artigo enviado ao Subjectum - Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Linguagem e Constituição do Sujeito, no primeiro semestre de 2007 (www.subjectum.com)


[1] Souza, Pedro in Orlandi, Eni P. Cidade Atravessada. Os Sentidos Públicos no Espaço Urbano. [Espaços Interditados e Efeitos-Sujeito na Cidade].Campinas: Pontes, 2001, p. 71.

[2] Certeau, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 97.

[3] Na acepção lacaniana do termo.

[4] Uma Didática da Invenção.

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