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Entrevistas Preliminares

ENTREVISTAS PRELIMINARES E A ENTRADA EM ANÁLISE





“La entrada en análisis se produce sólo cuando se instala un espacio que permita que el síntoma, sobre el que se fundamenta la queja, se aloje em un nuevo espacio subjetivo”.[1]

 

Recorro inicialmente ao célebre texto de Freud datado de 1912, intitulado Conselhos ao Médico no Tratamento Psicanalítico. Ali aconselha, de forma didática, sobre o começo de um tratamento, o que fazer e aquilo que não deve ser feito. Diz não ser interessante que se anote o relato do paciente, e sim que permaneça em atenção flutuante, para que não seja focada em determinados aspectos a fim de não criticá-los nem selecioná-los, garantindo o aparecimento de quaisquer elementos, mantendo assim o rechaço da coerência naquilo que é dito pelo paciente. Acrescenta: agir como um cirurgião, que impõe silêncio aos seus afetos; fazer sua própria análise antes de propor-se a atender pacientes em análise e que os pacientes aprendam com sua análise antes de recorrerem a obras teóricas.

É o surgimento da ordem da linguagem na Psicanálise.

Pela sua importância sintetizei esse texto que é extremamente válido e que continua a ser observado e seguido. É verdade que as entrevistas preliminares são desprezadas e/ou abreviadas por muitos psicanalistas por desconhecerem sua magnitude e assim as implicações dela decorrentes. Afinal, o que é feito durante esse tempo? Poderíamos dizer imediatamente: garantir que o paciente passe à condição analisante, que vá realmente trabalhar após a entrada em análise. Quanto tempo deverá permanecer nesse estado inicial? O quanto for preciso, enquanto não manifestar real desejo de análise – é entre a palavra e a sua realização (o ato) que está o verdadeiro desejo.

Um marco da entrada em análise é a passagem ao divã, sacando de cena o psicanalista, para que não seja visto e favoreça a transferência (seu lugar é o do Outro, o da invisibilidade): “Trata-se de uma tática, cujo objetivo é dissolver a pregnância do imaginário da transferência, para que o analista possa distinguí-la no momento de sua pura emergência nos dizeres do analisante”.[2]

Entrar em análise significa instalar o sujeito suposto saber, é então quando o Outro passa a responder ao sujeito. Nas palavras de Lacan, “se a psicanálise consiste na manutenção de uma situação acertada entre dois parceiros, que nela se colocam como o psicanalisando e o psicanalista, ela não poderia se desenvolver senão ao preço do constituinte ternário que é o significante introduzido no discurso que nela se instaura, aquele que tem nome: o sujeito suposto saber.”[3]

Uma vez ingressado em análise, parece estar seu fundamento vencido, uma vez que o sucesso da análise e o fim de análise dependem diretamente do sucesso das entrevistas preliminares: há uma relação condicionante entre si, afinal, não pode haver final de análise se não houve início. O tratamento de ensaio, assim chamado por Freud, era visto como uma precaução adicional para o estabelecimento de um diagnóstico seguro, mas que sabidamente não oferecia total garantia.

A passagem das entrevistas preliminares à análise é marcada igualmente pela disposição do psicanalista de bancar a análise com seu próprio ser, autorizando-se a iniciá-la, e pela verdadeira demanda (desejo) por parte do analisante. A investigação a partir de então será em verificar “o que fez fracassar o recalque e surgir o retorno do recalcado para que fosse constituído o sintoma”, denunciante do gozo do sujeito. Daí, será preciso “saber sobre o gozo que está em causa e que vem mostrar a verdade escamoteada do sintoma”. No entanto, é uma “manobra fadada ao insucesso devido à impotência do saber em dar conta da verdade do gozo.”[4]

É preciso dirigir a cura, não como na clínica médica, mas conduzindo o analisante a articular sua verdade, colocando-o em movimento sempre que balbuceia. A cura se dá em um processo estruturado que tem começo, meio e fim, e para adentrar à situação analítica é preciso em primeiro lugar - seguindo as regras, estabelecer um pacto com o analisante, através do qual será repetidamente cobrado a utilizar-se da regra fundamental.

O trabalho do psicanalista não é somente fazer com que o paciente trabalhe, pois “El analista también debe pagar: - pagar con palabras (...), - pero también pagar con su persona. (...) el analista cura menos por lo que dice y hace que por lo que es.”[5] Isto é, o analista paga com seu ser para que a transferência mantenha-se estabelecida e atuante (demanda de transferência de saber). Esta é a abertura clássica de uma análise.

Nassif, em seu texto Función Terapêutica de las Entrevistas Preliminares, dá conta, magistralmente, de sintetizar este assunto que, como já vimos, é crucial no percurso de uma análise. Durante as entrevistas preliminares a palavra do paciente é posta à prova, procurando assim assegurar que a cura possa se dar exclusivamente através da palavra. O paciente deverá estar disposto a divagar sobre seu próprio discurso, produzindo através da regra fundamental - a associação livre. Tratará de encarar seu sintoma como motivo do tratamento e não o tratamento como instrumento para sacá-lo de sua vida, passando então a produzir um saber próprio, a verdade acerca de seu sintoma: “Nada más temible que decir algo que podría ser verdad. Porque podría llegar a serlo del todo, si lo fuese, y Dios sabe lo que sucede cuando algo, por ser verdad, no puede ya volver a entrar en la duda”.[6]

A entrada em análise está diretamente relacionada à implicação do sujeito com seu discurso, e é justamente quando o coloca em jogo que se começa a produzir a verdade e a possibilidade de uma retificação subjetiva. Lembra Quinet que “a retificação subjetiva de Freud consiste em perguntar ‘qual é sua participação na desordem da qual você se queixa?’”[7]

O cenário está montado para o surgimento da verdade, e até então o sujeito parece estar implicado com seu desejo. É neste instante que o “penso onde não sou” é substituído pelo “sou onde não penso”, um limiar a ser necessariamente atravessado, produzindo assim um efeito de ruptura com o cogito: “A surpresa do paciente a se ouvir dizer, ou seu espanto diante de suas próprias produções psíquicas, podem ir até o pavor, quando ele percebe plenamente a significação desse recalcado”. [8] A verdadeira demanda de análise conduz à transferência, tornando o sintoma analisável, (re)construível, uma vez que a experiência desprazerosa do sintoma é da ordem do “penso onde não sou”, constituindo-se assim um facilitador da transformação desse estado. A demanda traz pois, consigo, um sofrimento que a faz constituir-se em demanda de análise.

O que não se sabia até a entrada em análise acerca de seu sintoma, do sofrimento que carreava com ele e de sua própria posição subjetiva frente ao desejo, passa agora, com a instalação do sujeito suposto saber/transferência, a ser um alvo laboriosamente perseguido pelos desfiladeiros da resistência, do fantasma, do próprio desejo e da falta: “Encetar uma análise é por certo entrar no mundo regrado da associação livre como sujeito da alienação. Nisso, as entrevistas preliminares não estão em ruptura com a própria análise: as associações significantes produzem um deslocamento do saber, e metem o sujeito no trabalho”.[9]

 

 

 

REERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 


FREUD, Sigmund. Obras Completas. Tomo II. Consejos al Médico en el
Tratamiento Psicoanalítico
. Biblioteca Nueva: Madri, 1981.

______ La Iniciación del Tratamiento (1913). Biblioteca Nueva: Madri, 1981.


LACAN, Jacques. Escritos 2. Siglo Veintiuno Editores - 17ª Edición: México, 1993.


LAURENT, ERIC. Modos de Entrada en Análisis y sus Consecuencias. Eolia-Paidós: Buenos Aires, 1995.


MOTTA, Manuel Barros de. IRMA Clínica Lacaniana. Rio de Janeiro: JZE, 1997.


NASSIF, Jacques. Función Terapêutica de las Entrevistas Preliminares. Paris. 1999.


QUINET, Antonio. As 4+1 Condições da Análise. JZE: Rio de Janeiro, 1991.

 

 


[1] Laurent, E. Modos de Entrada en Análisis y sus Consecuencias. Eolia-Paidós: Buenos Aires, 1995, p. 11.

[2] Quinet, A. As 4+1 Condições da Análise. JZE: Rio de Janeiro, 1991, p. 45.

[3] Lacan, J. Proposição de 9 de outubro de 1967.

[4] Quinet, A. As 4+1 Condições da Análise. JZE: Rio de Janeiro, 1991, pp. 21/22.

[5] Lacan, J. Escritos 2. Siglo Veintiuno Editores - 17ª Edición: México, 1993, p. 567.

[6] (Lacan, J. Escritos 2. Siglo Veintiuno Editores - 17ª Edición: México, 1993, p. 596.

[7] Quinet, A. As 4+1 Condições da Análise. JZE: Rio de Janeiro, 1991, p. 38.

[8] Wachsberger, H in Motta, M. B. IRMA Clínica Lacaniana. Rio de Janeiro: JZE, 1997, p. 29.

[9] Brousse, M-H, in Motta, M. B. IRMA Clínica Lacaniana. Rio de Janeiro: JZE, 1997, p. 78.

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