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Clarice Lispector

Recentemente falei a um grupo seleto de pessoas sobre Clarice na Academia. Seletos porque foram corajosos e destemidos em deparar-se com ela, e também pelo ambiente escolhido, que diz do avesso de Clarice. Resolvi discorrer sobre a produção de sentido em algumas de suas obras e, sem querer, acabei me atendo a A Hora da Estrela, cujo personagem principal é uma nordestina que migrou para a grande metrópole paulista - uma moça mirradinha, compreensível demais, sem ambições, sem graça. Chama-se Macabéa.

 

Logo à porta, antes de entrar, escutei de uma mulher que iria se aventurar a me escutar: “Odeio Clarice!”. Não foi a primeira, nem a segunda vez que ouvi uma expressão tão amorosa em relação à autora, nem será a última. A relação do leitor com Clarice Lispector se faz a duras penas, e aqui preciso recorrer ao sentido para poder explicar isso um pouquinho mais.

 

A irritação que surge em muitos de seus leitores vem do excesso de sentido ou da absoluta falta de sentido distribuídos ao longo de suas linhas. Clarice costumava usar de grande eloqüência para desenvolver seus enredos, geralmente travados no cotidiano, a partir de um caos pessoal: escrevia em guardanapos com delineador para os olhos em viagens de táxi, datilografava com a máquina no colo enquanto atendia aos filhos e à empregada, mas também em momentos de pura solidão e de desassossego interior.

 

Devo redirecionar aqui um ponto que diz respeito a um engano comum: o de que Clarice quis dar sentido ao que escrevia. Aliás, esta é, a meu ver, sua grande marca e, por isso, tornou-se tão controversa. Irritava-a o senso comum, questionava o absurdo vivido por sujeitos que não viviam a vida em intensidade, mas permitiam covardemente que a vida passasse por eles. Fugia loucamente daquilo que podia compreender, porque se sentia imobilizada, quase-morta, imprestável.

 

Se assim é, por que um sucesso que não conheceu fronteiras? O que escrevia, de tão sedutor que fazia com que muitos se apaixonassem por ela? Clarice Lispector emprestou seu próprio ser fazendo com que ela mesma desfilasse por entre as linhas, deixando a cargo do leitor não a finalização das estórias, mas o estabelecimento da relação entre a pobre vidinha de Macabéa, por exemplo, e a sua. Parece simples, se tivesse deixado uma porta aberta. Além de tê-las fechado, deixou dito que não havia somente uma, mas tantas quantas fossem possíveis achar.

 

Sua literatura não conheceu gêneros, e sequer houve quem arriscasse a configurá-la de alguma forma. Mas vou ousar: Clarice fez literatura de significante, e por isso não é possível ler sem implicar-se, sem fazer-se sujeito em cada página. Macabéa, plena em significados visíveis, atua como elo entre a realidade e a ficção, mas também como um ente que pede incessantemente para ser re-significado – uma significação que se faz a cada instante, quase fortuitamente, mas sem ingenuidade alguma.

 

 

Artigo Publicado no Jornal A Notícia, Coluna Opinião, em 24 de julho de 2005.

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