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Ser Psicologo

22 de fevereiro de 2017

Blog da Vittude.com - Sao Paulo - SP

Ser Psicólogo

Há uma pergunta que ouço reiteradamente, no consultório e nas ruas: “o que é preciso para ser Psicólogo?” Bem, a pergunta é simples, mas a resposta nem tanto. Talvez devêssemos em primeiro lugar retrucar, socraticamente, por que ser Psicólogo? A resposta geralmente é “para saber mais como a mente funciona, para eu me conhecer melhor”, e por aí vai.
Aqui há um equívoco que precisa ser debelado de início. Esse saber que almejam tantos calouros, não encontrarão na faculdade, e o conhecimento que tiverem êxito em apreender será insuficiente para dar conta da curiosidade que querem satisfazer. Sempre dizemos que fulano se formou na faculdade tal, é uma afirmação bastante otimista, porque imagino que sair formado resultaria em um prejuízo tremendo. Prefiro dizer que saiu deformado, ou seja, que algo mudou durante os anos que passou nos bancos universitários.
Retornemos à pergunta inicial. O que é preciso então para ser Psicólogo? Começaria respondendo que é preciso dispensar a tal “vontade de ser”, porque essa tem um peso muito pequeno. Há um ditado que diz que “vontade dá e passa!” Um Psicólogo deve ser movido pelo desejo, esse que, como nos dizia Lacan, nos coloca sempre em outro lugar, que nos impulsiona, que nos coloca em movimento, que nos faz querer saber mais, e depois mais e mais... Dizendo de outra maneira, ser Psicólogo não enseja simplesmente uma formação acadêmica, seja ela em que nível for, porque não há uma meta a ser atingida, mas um habilitar-se para um percurso sem fim.
Um segundo ponto que penso fundamental. O percurso infinito a que me referia deve ser, cumprida a graduação, personalíssimo e acompanhado imprescindivelmente da própria terapia. Explico: não há uma receita a ser seguida, mas uma obrigação em prosseguir, em construir-se dia após dia segundo os próprios interesses e a própria história. Neste sentido, o Código de Ética Profissional do Psicólogo, no item IV de seus Princípios Fundamentais, diz que “o psicólogo atuará com responsabilidade, por meio do contínuo aprimoramento profissional”. Por isso é tão importante que o aluno de Psicologia pense em iniciar o processo terapêutico já nos primeiros anos de graduação. Essa experiência é fundamental, diria, indispensável àqueles que querem atuar, sobretudo, na área clínica. Tão importante quanto a terapia é o processo de supervisão clínica após a graduação. É aí que o Psicólogo tem a oportunidade de vislumbrar como ele atua no atendimento, como é atingido pela demanda do outro, e acerca da própria capacidade de ir além do texto narrativo do paciente. Gosto de pensar que devemos escutar aquilo que o paciente não diz.
Um terceiro e último ponto, que vem na esteira dos dois anteriores. A faculdade não forma, somente informa. É preciso estar muito atento a isso. A formação é um gesto que depende de cada um e que será balizada pelo desejo de saber – um gesto que definirá o ser Psicólogo de maneira singular.

Adriano Martendal
Psicólogo CRP 12/02276
Doutor em Psicologia pela Universidad de Buenos Aires

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