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"Curar é deixar alguém melhor"

Fevereiro de 2017

Revista Saúde - Florianópolis - SC

“Curar é deixar alguém melhor”

A cura é um conceito que oscila entre as condutas terapêuticas. Podemos pensá-lo de maneira bastante compreensível nas esferas da Medicina, mas não tão simples assim na Psiquiatria, na Psicologia, e mais diversamente ainda na Psicanálise. Se o tomarmos a partir do senso comum, a expectativa é que a cura reflita a eliminação daquilo que está em desacordo, que incomoda, que resulta em sintomas. Pensando desta forma, a intervenção que cura uma apendicite, por exemplo, é um procedimento cirúrgico rápido que restabelecerá o estado anterior ao paciente, permitindo que retome suas atividades normais em pouco tempo. Neste caso, o paciente recebe a intervenção clínica que o restabelece.
Agora, se passamos aos campos da esfera psi, a cura é algo que faz pensar. Em primeiro lugar, porque o padecimento pelo qual passa o paciente pode ser um indicativo de que voltar a um estado anterior não é mais possível. Em segundo, porque o paciente precisa deixar sua posição paciente para se tornar impaciente ao mal que sofre – em outras palavras, não há possibilidade de mudança sem sua participação. Em terceiro, porque as nuances que envolvem a cura podem e devem lançá-lo a um outro lugar, diferente de onde esteve e de onde está.
A Psicanálise, conhecendo as desrazões da natureza humana, segue pela tangente de todas as disciplinas. O sintoma aqui, não é tomado a priori como o que deve ser curado e eliminado, mas como constituinte da estrutura psíquica daquele que reclama. Já nos contava Freud, em 1925, em Inibição, Sintoma e Angústia, que o sintoma é um sinal de que uma expectativa nao foi satisfeita. Então pergunto, por que eliminá-lo, já que funciona como um parceiro?
Essa estranha parceria me faz lembrar uma conversa que presenciei há poucos dias entre dois de meus sobrinhos: Beatriz, de 9 anos, e Artur, de 11 anos. Assistiam televisão, quando algo chamou atenção da pequena. Perguntou intrigada: “Mas ... o que é curar?” Artur respondeu sem pensar: “Curar é deixar alguém melhor, ué”.
Aquela resposta me perturbou por dias, porque foi precisa, e porque veio de uma criança que já sabe de muitas coisas. Quando falamos das mazelas e daquilo que atormenta o dia a dia, do que paralisa e faz adoecer, estamos nos referindo necessariamente à radical incompletude que vivemos. Neste sentido, o sintoma é um porta-voz que merece ter seu recado escutado e decifrado.
Uma análise se propõe não só a minimizar o sofrimento, mas a abrir uma porta através da qual, uma vez atravessada, se possa inventar uma nova maneira de lidar com o que se apresenta como inoportuno, incômodo e deslocado na vida. Neste sentido, a análise “cura” deixando alguém melhor no momento em que, de maneira impaciente, possa se posicionar de outra maneira frente ao que se queixa e deseja.

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