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Agenda

Medo

Agosto de 2016

Artigo publicado na Revista Frequencia Livre - n. 83 - Sao Paulo - SP

Medo

Brasília, 15:00Z. A bordo de um Boeing 767-300, ainda cumprindo perfil de subida com proa final do Aeroporto Internacional de Orlando - MCO, recordo um companheiro freqüente de viagem de muitos passageiros e tripulantes.

Não raro olho para o lado e vejo, indistintamente, homens e mulheres, jovens ou não, envoltos em rituais religiosos que se confundem facilmente com rituais supersticiosos. Superstição é um fenômeno mental com repercussões físicas, que busca proteger o supersticioso de algo que imagina poder lhe acontecer de ruim, que guarda um poder oculto que desconhece e não domina. Aqueles que se entregam a essa prática, tem, ao longo do tempo, acirradas as suas “modalidades” em diferentes ocasiões.

O vôo, para habituais e eventuais, pode evocar muitas emoções. Analisemos antes, a subjetividade que cerca o pré-vôo. Sair de casa para viajar é o primeiro passo, o que pode significar tirar o pé do chão. O caminho até o aeroporto é mais uma etapa – é literalmente um deslocamento de um lugar a outro – não geográfico propriamente dito, mas de alguém que se coloca em movimento, o que soa difícil para alguns. O check in se constitui como a última fronteira entre o ir e o ficar, entre permanecer e fazer algo diferente. Entrar, finalmente, em um cilindro que será pressurizado em instantes, para muitos é o prenúncio da morte.

Em todas as fases do vôo – e observo esse comportamento há muitos anos, muitos dormem (alguns vítimas de calmantes), outros se colocam a falar sem parar (significativo sintoma de angustia), outros acham que é hora de rememorar todos os perigos de estar ali, com suas infindáveis possibilidades.

- “Será que a porta fechou mesmo? E se alguém tentar abri-la em vôo... um maluco, sei lá... vamos todos morrer!”

Há vinte anos, voltando de um vôo de Miami, vim ao lado de um brasileiro que trabalhava e residia na Florida. Medroso confesso, embarcou com uma generosa garrafa de whisky, que mantinha a seus pés. Já devidamente calibrado ao sentar, reforçava o nível alcoólico no sangue a cada pequena novidade em vôo.

- “Bacana”, assim me tratava durante todo o tempo, “essa asa tá entortando demais, Bacana, puta que pariu, ai meu Deus, que medo”!

Confesso que, apesar de assisti-lo batendo palmas com os joelhos durante todo o voo, me divertia com os raios e os CBs lá fora que sacudiam o avião. Não preciso dizer que chegamos a Guarulhos em segurança, mas, claro, com a garrafa seca.

Já nos ensinava Freud em um de seus célebres textos, intitulado O futuro de uma ilusão, sobre o companheiro de viagem que falava no inicio. Deus, lembrado sempre em momentos de aperto, é um substituto do pai, não propriamente o pai biológico, mas daquele que exerceu essa função durante a infância – o que é indispensável à criança em seu saudável desenvolvimento físico e emocional. Deus se torna então uma continuação dessa função, alguém que continua cuidando, protegendo e amparando.

Voar traz múltiplas sensações. Boas para aqueles que o aproveitam do começo ao fim, o descrevendo como “liberdade” (apesar do controle de tráfego aéreo), sobretudo em alguns vôos com regra visual. Não poucas vezes abri a janela e toquei as nuvens. Eram momentos mágicos, como a realização de um desejo infantil. É verdade que pilotos podem saborear o vôo de maneiras muito diferentes a dos passageiros: decolar, pousar, dar potência, voar encaranguejado, subir, descer... Mas, voar é uma surpresa que, em última instância, é indescritível. Dizendo ainda de outra maneira: não há palavras que dêem conta de explicá-lo. Melhor mesmo é não ousar descrevê-lo. Voe!

O medo é um tema denso, e não é muito fácil encontrar aqueles que fazem algo com ele. No entanto, conheci cirurgiões que desmaiavam ao ver sangue antes de ingressar na faculdade; conheci grandes pilotos que tinham medo de voar; conheci importantes professores que se fizeram mestres com medo de sucumbir à ignorância. Em outras palavras, conheci pessoas que calcularam a V1, a VR e a V2 da própria vida e a experimentaram. Tarefa de corajosos? Não propriamente. Estamos falando de pessoas que se inconformaram com a retaguarda e algo fizeram, que empreenderam uma viagem só com o bilhete de ida.

O que fazemos todos, pilotos ou não, é encontrar meios para driblar aquilo que a vida apresenta como difícil de encarar. Há quem a torne um pouco mais tranqüila pilotando uma aeronave; há quem consiga viver melhor escrevendo sem parar; há quem torne a vida mais tolerável continuando a acreditar no pai; há ainda aqueles que passam a vida na janela, literalmente, vendo a vida passar.

O medo é um mecanismo de proteção que todos usamos em algum momento. É salutar quando nos preserva momentaneamente de um evento inusitado ou desconhecido. Mas, é avassalador quando se constitui em um jeito de viver. Como canta Lenine, “o medo é uma brecha que faz crescer a dor; o medo é uma linha que separa o mundo”, ainda diria eu, que nos separa do mundo.

Depois da V2, com o manche na mão, resta voar.






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